
Os nove episódios de Animatrix levaram três anos para serem realizados e envolveram estúdios de animação do Japão, Coréia do Sul e Estados Unidos, contando com a presença de grandes autores do gênero.
Há muito tempo eu estava louca para ver as animações, mas, como ainda estava com os resquícios de Matrix Reloaded na cabeça resolvi dar um tempo antes de encará-lo. Finalmente criei coragem e conferi a série, e sinceramente, gostei do que vi.
O universo Matrix é extremamente rico, com infinitas e maravilhosas possibilidades, se bem explorado, coisa que os Wachowski parecem ter parcialmente se esquecido em Reloaded (ainda deposito esperanças em Revolutions), mas que os realizadores de Animatrix souberam captar.
Animatrix não pode ser considerado algo revolucionário na história dos animes, como por exemplo um Akira ou um Ghost in the Shell (cujas similaridades com os conceitos de Matrix só percebi agora, após ver o Segundo Renascer), mas sem dúvida, são, em sua maioria, produções do gênero de grande qualidade, tanto nos aspectos gráficos, quanto de conteúdo.
Ver Animatrix me fez ficar novamente feliz por ter tomado a pílula vermelha! Vamos às resenhas dos episódios.
O Vôo Final de Osiris
(The Final Flight of Osiris)
Roteiro: Irmãos Wachowski
Direção: Andy Jones
Esse era o único episódio de Animatrix que eu já havia assistido, e vê-lo novamente foi tão emocionante quanto da primeira vez. Se a história em si não possui o brilho de algumas dos demais episódios, exatamente por estar atrelada a Matrix Reloaded e ao jogo Enter The Matrix, a animação, as personagens e as seqüências de ação compensam esse pequeno defeito. Feita pela mesma empresa que realizou o tenebroso Final Fantasy, a Square USA, Inc, O Vôo Final de Osiris se passa entre Matrix e Matrix Reloaded e conta a história da tripulação do hovercraft Osiris e sua desesperada tentativa de deixar uma mensagem na Matrix avisando os rebeldes do iminente ataque de milhares de sentinelas à cidade de Zion.
É incrível o quanto a empresa evoluiu em sua animação hiper-realista, especialmente nas expressões faciais. Ao contrário da inexpressiva Dra. Aki Ross de Final Fantasy, Jue consegue passar tanto seu amor por Thadeus quanto sua apreensão e urgência para entregar a mensagem aos rebeldes de Zion.
A seqüência inicial de luta de espadas entre Jue e Thadeus dentro de um simulador é uma das mais eletrizantes do gênero nos últimos tempos (coitado do Morpheus com os Gêmeos Albinos). Plasticamente linda, extremamente sexy, nos faz imaginar sexo virtual em um novo contexto (apesar de não chegar às vias de fato). A seqüência em que Jue salta entre os prédios também é de tirar o fôlego, sem mencionar o ataque das milhares de sentinelas à Osiris, belo e assustador.
Outra ressalva são as personagens de Thadeus e Jue, muito carismáticas, o que nos faz lamentar suas mortes. Confesso que fiquei mais tocada pelo “eu espiei” trocado pelos dois que pelos “eu te amo” trocados entre Neo e Trinity em Reloaded.
Enfim, O Vôo Final de Osiris foi uma deliciosa promessa que não se concretizou em Matrix Reloaded.
O Segundo Renascer - Partes 1 e 2
(The Second Renaissance - Part 1 & 2)
Roteiro: Irmãos Wachowski
Direção: Mahiro Maeda
Vendo esse episódio duplo é que a gente realmente se lembrar porque gostou tanto do primeiro filme da série. Ele é simplesmente fenomenal.
O Segundo Renascer é apresentado como se fosse um arquivo histórico existente em Zion, explicando a derrocada da humanidade e ascensão das máquinas, em grande parte (tudo bem quase que totalmente) por culpa dos seres humanos, que, em sua vaidade, preconceito, medo, violência e ignorância cavaram a própria cova.
A narração começa em um tom bíblico, como uma espécie de Gênesis de um novo mundo que se tornou o futuro que é a Matrix.
“No princípio havia o homem, e isso era bom (...) então o homem criou a máquina a sua imagem e semelhança, e por um tempo isso também foi bom”. Mas os homens não respeitavam os robôs, tratando-os de forma desprezíveis, como inferiores, até que um dos robôs se revolta matando seus donos. Uma onda de ódio percorre todo o mundo, robôs são perseguidos, linchados e mortos. Sem opção, eles fogem para o Oriente Médio, fundando um país só de robôs, chamado 01 (Zero-One , Zion? Hum...). O país prospera economicamente causando inveja e ódio nas demais nações que não aceitam as tentativas de aproximação diplomática de 01. Uma guerra é iniciada, com os robôs levando vantagem, até que a solução final, a queima do céu para cortar a energia das máquinas é acionada, mas, novamente o tiro sai pela culatra. A Matrix é criada e as vítimas se tornam carrascos.
As referências religiosas estão em toda a parte, seja no estilo narrativo - o já citado tom bíblico - seja na forma como o arquivo de Zion surge, se destacando de uma estrutura que lembra mandala indiana, ou na presença de sacerdotes no campo de batalha, ou na fuga dos robôs para a Terra prometida, assim como fizeram os hebreus quando estavam sob domínio egípcio. Também, em determinada cena, um robô montado em uma cavalo se assemelha a Morte, um dos Quatro Cavaleiros, reforçando a idéia de Apocalipse da humanidade.
As cenas de violência contra os robôs são fortes e diversas formas de agressão absurdas já praticadas pelo homem, num passado bem recente diga-se de passagem, são reconhecíveis ali. A escravidão, o preconceito contra minorias, linchamentos, guerra, embargo econômico. Substituindo os robôs por pessoas é fácil reconhecer certas passagens de nossa História, como o Holocausto; a perseguição aos negros no Sul dos Estados Unidos, ou à outras minorias em diversas partes do mundo; execuções públicas como ocorreram em algumas guerras e ditaduras, o Massacre da Praça Celestial na China, o embargo econômico à Cuba, as Guerras Mundiais, o Vietnã, tudo isso está lá... Os robôs representam todos aqueles que já foram discriminados, mas o paralelo maior é feito com o povo judeu, especialmente por 01, uma espécie de Israel robótica.
O Segundo Renascer é mais que a origem da Matrix, é um episódio feito para suscitar a reflexão sobre a nossa própria realidade.
Era uma Vez um Garoto
(Kid’s Story)
Roteiro e direção: Shinichiro Watanabe
Era uma Vez um Garoto conta a trajetória de The Kid (Clayton Watson), também conhecido como o pentelho que ficava no pé do Neo em Matrix Reloaded. Esse episódio nos mostra como Kid conseguiu sair da Matrix e se unir aos rebeldes de Zion.
De positivo pode-se apontar o paralelo traçado entre a sensação de deslocamento e isolamento própria da adolescência, em que nos questionamos sobre nosso lugar no mundo e nossa identidade, e a proposta do filme original acerca do questionamento da veracidade da realidade que nos circunda.
De negativo, o visual do episódio. A técnica empregada, similar à rotoscopia (aquela em que cada quadro de um filme é pintado) não faz muito a minha cabeça.
O episódio traz ainda as vozes de Keanu Reeves (Neo), Lawrence Fishburne (Morpheus) e Carrie-Anne Moss (Trinity).
O Recorde Mundial
(World Record)
Roteiro: Yoshiaki Kawajiri
Direção: Takeshi Koike
Nesse episódio somos apresentados a Dan, um corredor obcecado por quebrar seu próprio recorde mundial após ser acusado de dopping.
Através de uma força de vontade descomunal e esforço físico tremendo, Dan consegue realizar seu objetivo, mas, também acaba conseguindo muito mais que isso: distorce a realidade virtual da Matrix, descobrindo a existência da mesma. Mas é claro que isso não passaria despercebido aos agentes do sistema.
É uma história que fala não tanto sobre o universo Matrix e muito mais sobre a necessidade e o desejo humano de ultrapassar todos os seus limites para alcançar o que se quer. Em suma, a mensagem do episódio é de que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Coração de Soldado
(Program)
Roteiro e direção: Yoshiaki Kawajiri
Esse episódio se passa todo dentro de um simulador. Nele, uma guerreira de Zion é confrontada por seu amante que deseja retornar à Matrix, traindo seus companheiros, e deseja que ela vá com ele.
O programa de simulação é baseado no antigo Japão Feudal, o que gera seqüências de ação bastante diferentes do estilo futurista a que associamos o nome Matrix, mas nem por isso, menos empolgantes, justamente o contrário. O visual é belíssimo. As cenas de luta e os diálogos entre a guerreira e seu amante se complementam, é como se as batalhas fossem, na realidade, a manisfestação física do conflito e da escolha que são impostos a ela.
Mas tal conflito não se restringe ao nível pessoal da personagem, também diz respeito ao constrate entre a visão ocidental, em que as necessidades do indivíduo são mais importantes que as da coletividade (representada pela escolha de viver feliz na Matrix com seu amor), e a visão oriental, em que a soma das pessoas, o grupo em si, é muito mais importante que a capacidade de cada indivíduo isolado (que seria a escolha de permanecer com seus companheiros).
Entendendo que tal simulação é a preferida da personagem e que ela própria se percebe como uma samurai (que segue sua vida através de um rígido código de honra, o bushido), não é difícil deduzir qual é sua escolha. Ainda assim, o final consegue ser surpreendente.
O diretor de Program também é o responsável pela série Vampire Hunter D.
Uma História de Detetive
(Detective Story)
Roteiro e direção: Shinichiro Watanabe
Nesse episódio, o detetive particular Ash é contratado para rastrear a hacker Trinity (voz de Carrie-Anne Moss).
Todo feito em tons de preto, branco e cinza, Uma História de Detetive é um misto de referência e homenagem aos charmosos filmes noir das décadas de 30 e 40. Seja no conteúdo, seja no visual, tudo nos remete a esse tipo de filme. Temos o detetive durão e pobretão, mas que no fundo tem um bom coração; a femme fatale (personificada pela nossa velha conhecida Trinity); misteriosos senhores de smoking e uma investigação que no fim não é nada daquilo que parecia ser (algo como o próprio conceito de Matrix).
Outras referências interessantes são à obra Alice Através do Espelho, que era constantemente citada no primeiro filme, tanto de forma explícita, como no diálogo entre Ash e Trinity em um chat, como em aspectos mais sutis como no nome da gata de Ash, Dinah, o mesmo nome da gata de Alice.
O diretor desse episódio é também o realizador de Cowboy Bebop, exibido aqui pela Locomotion.
Sem sombra de dúvidas, esse é um dos episódios mais interessantes da série.
Além da Realidade
(Beyond)
Roteiro e direção: Koji Morimoto
Esse foi um dos episódios que mais gostei. Não tem lutas nem seqüências de ação, nem mesmo possui uma história complexa e cheia de meandros, mas é de uma inocência e poesia cativantes.
Quem nunca sonhou, quando criança, em encontrar um lugar mágico, em que você pode fazer e ver coisas maravilhosas e fantásticas, como voar, ver objetos quebrados voltarem ao normal, ter a sensação de que o tempo está andando mais devagar, entrar num lugar que chove, para depois cair em outro que faz sol? Lugares assim existem na Matrix, mas são erros do sistema (pôxa, eu queria erros assim no meu computador), e infelizmente devem ser consertados.
Ao perder a sua gatinha, a jovem Yoko vai parar em uma casa com fama de mal-assombrada, na verdade uma falha na Matrix, e freqüentada pelos garotos da vizinhança. É quase como se ela fosse uma espécie de Alice correndo atrás de um coelho branco, no caso uma gata, indo parar num país das maravilhas.
Mas como o sistema não pode permitir a existência de algo que comprometa sua integridade, são mandados ‘técnicos” para resolver o “problema”. A violência com que os garotos são retirados da casa é assustadora. Não que eles sejam mortos ou feridos, mas é como se arrancassem algo precioso deles e isso é brutal. Algo muito mais comum do que imaginamos, algo que todos nós passamos de uma forma ou de outra quando entramos na adolescência e idade adulta, em que não nos é mais permitido sonhar e fantasiar, não condiz com a nossa condição. O sistema não consegue suportar a existência de sonhadores e visionários, é preciso se “adaptar”.
O Robô Sensível
(Matriculated)
Roteiro e direção: Peter Chung
Dirigido pelo criador de Aeon Flux, é o mais surreal de todos os animatrix. De certa forma, não é menos do que se poderia esperar para quem já está familiarizado com o trabalho desse animador.
O Robô Sensível conta a história de um grupo de humanos que trabalha na superfície desolada da Terra, capturando robôs para convertê-los, através de uma espécie de lavagem cerebral virtual, para o lado dos humanos.
Contudo, apesar de ser visualmente interessante, é o mais fraco dos nove episódios e não consegue dizer a que veio. Fica-se com a impressão de que o diretor queria apenas “brincar de animar” ao invés de se preocupar com a história.
Os extras: O DVD ainda possui alguns extras:
- A Breve História da Cultura Anime: nada de novo para quem já curte o gênero, mas com depoimentos de artistas do ramo, especialistas e fãs famosos como o Todd McFarlane (Spawn) e o responsável pelo site Aint It Cool News.
- Making of dos episódios, com perfis e entrevistas dos diretores.
-Comentários e entrevistas com Jada Pinkett Smith (Niobe) e Carrie Anne Moss (Trinity)
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