O cineasta sueco Ingmar Bergman, influenciado pela psicologia cognitivista, pela psicanálise junguiana, pela filosofia existencialista de Sartre e também pelo teatro grego, realiza uma grande obra audiovisual: “Persona”.
Para a criação desse roteiro, Bergman utilizou-se de dois personagens arquetípicos centrais: Sombra e Persona. (pares de opostos que contribuem para o equilíbrio da psique humana, segundo a teoria junguiana).
O personagem de Liv Ullman, Elisabeth Vogler, é uma atriz que sofre um grande trauma sobre o palco enquanto interpreta o papel de Electra. Lisa se dá conta que na vida também representava papéis.
O ser e existir feminino, a vertigem e a náusea que persistem na busca pela completude, o existir sem fraturas na alma, são características desse personagem durante toda a trama.
O cenário de “Persona” possui uma forte carga noir e nos remete ao expressionismo cognitivista da vanguarda francesa de Jean Epstein. Em “A queda da Mansão de Usher”, Epstein recria uma mansão assombrada utilizando-se de tecidos esvoaçantes entres pontos de luz e sombra.
Bergman utiliza-se desse recurso por diversas vezes durante a narrativa, acentuando a sombra da personagem de Ullman, a fim de ilustrar o caráter metafórico de sua interpretação.
Elisabeth Vogler está em seu quarto de hospital, sozinha. Ela anda de um lado para o outro enquanto a televisão dá notícias trágicas do mundo real.
Repentinamente, começa a ser transmitido o suicídio do monge Thic Quang Duc, em 11 de junho de 1963, que durante uma manifestação contra a opressão religiosa no Vietnã ateou fogo ao próprio corpo.
Durante a cena, a fotografia reforça a luz da televisão que está bem próxima ao chão, e isso faz com que a sombra de Liv Ullman se agigante na parede, enquanto ela parece ser atingida pelas imagens que a televisão projeta sobre ela.
O personagem de Liv Ullman representa todo esse conteúdo do inconsciente feminino, que foi culturalmente, por décadas, repreendido. Liv Ullman não quer realmente saltar à vida, pois se vê confortável muda, presa no nada, sem poder atingir o ser, assim como o arquétipo da Sombra que jamais deixará de habitar o inconsciente, enquanto houverem conteúdos reprimidos.
O segundo personagem, interpretado por Bibi Anderson, é Alma, uma jovem enfermeira, filha de fazendeiros, e noiva de um homem que provavelmente não ama. Durante a narrativa, Alma se abre com Elisabeth, contando-lhe segredos picantes e mal resolvidos de seu passado.
Justamente pela mudez traumática de Elisabeth, Alma toma o lugar de Persona, pois é a única que se apresenta para o mundo, assumindo os riscos de seus atos e as frustrações que a vida oferece.
Por sua vez, as cenas de apresentação do filme retratam uma sala de projeção, uma película rodando enquanto projetam-se imagens em uma tela. Não podemos deixar de notar a referência que Bergman faz à caverna platônica, tampouco a analogia que o mito representa para o sistema psíquico descrito na psicanálise freudiana, além de seu caráter ontológico em relação ao cinema.
As imagens aceleradas, com ícones eróticos sendo rapidamente expostos entre a apresentação dos personagens principais, acentua o erotismo que existe na alma humana e é inerente ao processo de auto-conhecimento, ou individuação, como é também chamado por C.G. Jung.
A influência da psicanálise fica claramente exposta no decorrer da trama, pois Bergman sugere um relacionamento amoroso entre Alma e Elisabeth, e faz uma das mais belas cenas do cinema, ao representar a união da Sombra e da Persona.
Bibi Anderson está em frente ao espelho quando Liv Ullman chega por trás e passa a mão em seus cabelos. Bibi passa a mão nos cabelos de Ullman, levando-os para frente, e elas cruzam suas cabeças. Bravo! Bergman reconstruiu uma metáfora perfeita para a satisfação pessoal que poderia existir se os arquétipos Sombra e Persona se unissem.
Ao fim da trama, o cineasta sueco quebra seus laços com a narrativa, e utiliza-se de vários efeitos, até mesmo a queima de um fotograma, a fim de que o personagem de Bibi Anderson e de Liv Ullman se confundam na mesma pessoa.
Outro personagem arquetípico é o personagem secundário da médica, que cede sua casa de praia para que Alma e Elisabeth continuem o tratamento. A médica simboliza a parte consciente do personagem de Liv Ullman e seu texto, de inspiração existencialista, nos revela a real dificuldade de sua paciente naquele momento.
Segundo a teoria psicanalítica, o Ego é o centro da consciência e durante o processo de individuação ele entra em contato com os conteúdos arquetípicos do inconsciente pessoal e do inconsciente coletivo através do Self. Portanto, o Ego é responsável por esse contato entre a realidade e conteúdos desconhecidos da consciência, emanados do Self, centro gerador de toda energia psíquica, bem como de seus conteúdos arquetípicos.
Portanto, a casa na praia (Self) simboliza essa tranqüilidade e essa paz interior quando a Persona e a Sombra se encontram, atingindo o equilíbrio entre esse par de opostos e possibilitando à consciência o contato com conteúdos até então desconhecidos.
O grande objeto de estudo de Bergman em Persona é o processo de individuação, de auto-conhecimento, no qual uma pessoa torna-se si mesma, inteira, indivisível e distinta de outras pessoas ou da coletividade.
Por Ana Ferreira
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