
“Em verdade, muito acaso veio a mim como destino, mas mais senhorialmente ainda falou-lhe a minha vontade”
Friedrich Nietzsche
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Se deixar abater é sempre uma opção. E nem venha alguém me dizer que é a mais fácil: se entregar à dor, à decepção, ao cansaço, à tristeza, como quem dá-se ao carrasco, não é fácil.
É antes um desânimo imenso, uma espécie de dor na alma e uma vontade de sumir tão aguda e tão imensa que nos consome como as águas muitos frias e profundas a um náufrago. Não: se entregar não é fácil, desistir é difícil e é também como se nos cortassem uma parte do corpo.
Mas não é a hora. Ainda não. Há uma dor que consigo suportar, pois que já me acostumei, como um condenado que levasse uma quimera nos ombros, como se fora um personagem de Gogol. Mais que isso: eu encontrei o general inimigo, e tomamos chá de sangue e ácido. E eu via todas as dores do mundo passando diante de mim, e as sorvi sem sorrir e sem chorar.
Caro camarada, o que você quer aqui? Ele me perguntou. E eu disse que quero prosseguir. Quando ele olhou para mim, eu senti que ele sabia que eu não tinha destino e me oferecia um acaso qualquer, ao que também com um olhar, recusei. Pois se por um lado é verdade que não tenho um ponto em que quero chegar, igualmente não é qualquer lugar que me interessa e seguir em frente continua sendo uma opção. Não será dessa vez. E ele se vira e eu saio. nem fui vencido nem derrotei.
Olhos. Bonitos como Angkor Wat e tão perdidos quanto. O silêncio deles é de uma dor suave e um desespero mudo e quieto, uma força que não emerge. Mas não se cruzam com os meus. E o porquê é a minha pergunta eterna, minha perdição e a minha única saída. Olhos que não são perguntas, que nem decifram nem devoram, mas são mistério.
Ah, uma sombra. Mas não paro nela, por que há os cabelos. Que brilham e se confundem com o Sol. Um sol que não aquece por fora. Consumido, pela beleza, pela luz e pelo brilho, sigo em frente. Mas já não dá. Tudo se confunde com o que me domina: cada cheiro bom, cada perfume, cada beleza, todas as alegrias e as felicidades, das menores até a última, que é também um sonho.
E eis que eu me vejo perdido. E mudo até a alma, perdido num silêncio que só uma visão quebra. E quero dizer alguma coisa, eu preciso gritar e quero que me ouça o mundo inteiro. Num último respirar lúcido se esvai e só uma coisa eu quero agora. Fechar a janela, por que está frio e ligar para a Luciana, por que temos que escolher um bom naco para uma carne de panela.
À moda goiana, que é como convém.
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