Programas radiofônicos: o real e o aparente fabricados dia-a-dia nesta Matrix a serviço do poder.

Teoria: o artigo 221 da constituição brasileira diz que “a produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; II – promoção da cultura nacional e regional (...); IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família”.

Prática: “durante sua presidência, o general João Figueiredo (1979–85) concedeu 634 freqüências de rádio e de TV à congressistas ou a seus protegidos, para garantir a derrota da emenda Dante de Oliveira, que restabelecia eleições diretas para Presidente da República. Seu sucessor, José Sarney (1985-89) distribuiu mais 1.028 freqüências de rádio e TV, das quais 839 a congressistas e seus protegidos, para conseguir a extensão de um ano de seu mandato”1.

Não é de hoje que os meios de comunicação de massa, como o rádio, são usados para fins de trocas de favores políticos. Esta prática acaba definindo, como veremos mais adiante, o uso político-ideológico em suas programações. Edgar Roquette-Pinto que é considerado o pai do rádio brasileiro, prevendo as potencialidades do novo meio de comunicação que nascia, já na década de 20 criava o seguinte slogan para a primeira emissora do país: “trabalhar pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil”. Um breve passeio pelo espectro radiofônico vai comprovar que as rádios estão cada vez mais distantes desse ideal e com uma programação cada vez mais parecida e de qualidade duvidosa.

Um outro problema que se apresenta e que tem implicação mais catastróficas é o fato de que um grande número de concessões, não só de rádio mas de canais de televisão, estão nas mãos de políticos. “O mais notável exemplo desse 'coronelismo eletrônico' é o próprio ex-presidente José Sarney, hoje Senador, que controla, diretamente ou por intermédio de familiares e amigos, 20 das 57 estações de rádio e TV do Maranhão. Seus aliados políticos controlam outras 15 emissoras”2. Vale lembrar que o atual Presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), está sendo investigado pelo conselho de ética desta instituição por uso de 'laranjas' na compra de duas emissoras de rádio em Alagoas. Alguém duvidada que na Paraíba é diferente? Não só rádios, mas outros meios de comunicação como canais de televisão, jornais e até mesmo rádios comunitárias aqui em nosso Estado estão nas mãos de políticos e assessores de políticos locais.

O uso desses meios para fins políticos-ideológicos é tão óbvio quanto a certeza de que amanhã fará sol. Se resta dúvidas quanto a isso, basta ligar o rádio nos programas matinais de cunho “jornalistico” que logo fica clara a presença não de radialistas comandando programas, mas de verdadeiros assessores de imprensa que advogam, no ar e descaradamente, a favor de Prefeitos, Governador, Vereadores... Um bom começo são as rádios Tabajara FM (105,5) e Miramar FM (107,7).

É desta forma que no dia-a-dia desses programas radiofônicos o real é maquiado e apresentado de forma mais bonita, mas não menos falsa. A comparação aqui é feita com a Matrix (aquela mesmo do filme) que significa útero, lugar onde algo é gerado, ou seja, local onde se cria uma “realidade” na qual todos acreditam, manipulando as percepções, os sentimentos e pensamentos (dos ouvintes), fazendo-os crer em aparências que não condizem com o real.
Resta apenas saber se você vai encarar a realidade, assim como Neo (a personagem principal do filme) ou vai continuar neste mundo de aparências. Da próxima vez que ligar o seu rádio, pense nisso!

1. KUCINSKI, Bernado. A síndrome da antena parabólica. Ed. Perceu Abramo. 1998, p. 32.
2. Op. cit.



Fabiano P. Silva
é comunicólogo e estudante de Ciências Sociais da UFPB

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