Candidato da mudança, Obama busca comparação com Lincoln


colaboração para a Folha Online

Com uma pilha de promessas a cumprir e altas expectativas a alcançar, o democrata Barack Obama pode se beneficiar da comparação com o impopular governo do republicano George W. Bush, mas foi buscar no passado outro desafio --escolheu como modelo Abraham Lincoln (1861-65), outro presidente republicano que venceu a Guerra da Secessão e libertou os escravos.

Da escolha da mesma Bíblia usada por Lincoln na sua posse, há 148 anos, para fazer o juramento presidencial à chegada de trem a Washington, Obama segue um roteiro calculado para ligar a sua imagem à do republicano que, como ele, nasceu em uma família simples e construiu a carreira política no Estado de Illinois.

Mas a busca por um modelo vai além do cerimonial. Articulistas democratas atribuem a uma inspiração em Lincoln a manutenção de republicanos em cargos importantes no novo governo --como Robert Gates, na Defesa-- e a indicação de Hillary Clinton para a Secretaria de Estado, mesmo após a dura disputa que os dois tiveram nas primárias que definiram o candidato democrata à Presidência. A administração de Lincoln ficou conhecida como "equipe de rivais" --característica também apontada na de Obama.

Outras duas comparações são frequentes: com os democratas Franklin Delano Roosevelt (1933-45) e John Kennedy (1961-63).

O primeiro assumiu o país quando os efeitos da quebra da Bolsa em 1929 tinham arrasado grande parte da economia americana, e o sistema bancário estava em ruínas.

Formado em Harvard --como Obama--, Roosevelt era um aristocrata que combateu a Grande Depressão com ampliação da participação do Estado na economia, o que traçou, neste setor, a diferença principal entre os dois grandes partidos americanos. Obama, agora, também lida com uma grave crise financeira e uma eventual nova onda intervencionista irá indicar se ele pretende aplicar a receita de Roosevelt 70 anos depois.

Kennedy

Com Kennedy, a comparação tem sido automática para todo candidato presidencial ou presidente democrata, desde os anos 60. No caso de Obama, a juventude, o apelo por mudança e o dom para oratória e escrita são os alvos da comparação com o presidente assassinado em 1963.

Também formado em Harvard, Kennedy era visto como uma promessa política, mas ganhou prestígio intelectual com o lançamento, em 1956, do livro "Perfis de Coragem", em que traçou a vida de senadores que mantiveram as próprias convicções mesmo diante de pressões, desafiando a opinião pública por questões de consciência.

Também autor de best-sellers --já lançou duas autobiografias-- Obama leva ao menos uma vantagem sobre Kennedy nesse campo.

Tanto o livro, premiado com o Pulitzer em 1957, quanto os principais discursos de Kennedy são em grande parte atribuídos ao seu assessor Ted Sorensen --que chegou a receber parte dos direitos sobre os livros-- enquanto as alegações de que os livros de Obama tenham sido obra de "ghost-writer" (um autor-fantasma) são menos frequentes e localizadas principalmente em sites de republicanos.

Obama, como é regra entre os políticos americanos, tem sua própria equipe de redatores de discursos, mas seu dom para a oratória é indisputado.

Outras comparações

A disposição de Obama para conversar com líderes de países tidos como inimigos --como o Irã-- pode levá-lo a uma comparação com o republicano Richard Nixon (1969-74), que reabriu o diálogo com a China comunista. Nixon também, depois de procurar uma "saída honrosa", retirou as tropas americanas do Vietnã, em acordo de paz que buscava preservar o governo aliado dos EUA na região, mas que acabou levando à vitória dos comunistas em todo o país.

É justamente por meio da comparação com Nixon que o atual presidente, George W. Bush, espera conseguir, da história, um julgamento menos inclemente do que o que tem recebido nas pesquisas de opinião.

Como Bush, Nixon deixou o cargo com níveis historicamente baixos de popularidade --renunciou em meio a um escândalo de espionagem de um escritório do partido democrata--, mas alguns avanços diplomáticos de seu governo passaram a ser vistos como um legado positivo.

Se a solução que Obama der para o envolvimento americano no Iraque for positiva, ele vai conquistar um lugar de destaque na história, ao mesmo tempo em que poderá dar a Bush o crédito de ter iniciado a democratização do país árabe.

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